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La Bohème no Teatro Nacional de São Carlos
4.5 (2)

25 de março, 2022 2 Por António Lourenço
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La Bohème

 

Estreada em 1896 e composta por Giacomo Puccini, La Bohème  é uma das óperas mais populares e cantadas nos Teatros de todo o mundo.

Puccini nascido em Lucca em 1858, faleceu em 1924 em Bruxelas, vítima de uma hemorragia no decorrer de uma operação à garganta para tratamento de cancro diagnosticado no ano anterior. Também gostava muito de velocidade e automóveis, e em 1903 sofreu um acidente que lhe causou uma lesão grave no fémur e que demorou meses a tratar. Devido ao seu precoce desaparecimento, faz-nos ficar a dúvida no que ele ainda poderia vir a criar, mais óperas?

Já numa época de vanguardas musicais as óperas de Puccini não tinham as características transgressoras de um Debussy ou Schönberg, Stravinsky ou até Richard Strauss, mas se apreciarmos o estilo e ritmo das suas composições e como aqueles que em nome da evolução na história da música, dão enfase ao atonal e ao dodecafonismo, em detrimento da veia melódica, temos ao fim e ao cabo o que nos envolve e encanta. Mas em Puccini existe modernidade, citando Adorno, que escreveu a propósito de outro compositor, Mahler que a sua modernidade não residia nas características do material utilizado, mas antes no modo, esse sim inovador e como o utilizou.

 

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La Bohème

 

Acontece que algum público vai à opera sobretudo para ver, e nesta encenação de Emilio Sagi (que foi diretor de quase todos Teatros líricos de Espanha) os cantores têm de representar muitíssimo, inclusivamente fumando.

Num cenário algo cinematográfico e desdobrável, numa humilde mansarda em Paris do seculo XIX, vivem um poeta, um pintor e um filósofo.

Ao abrir da cortina, o Primeiro Ato inicia-se na pobre mansarda, com um grande janelão, em que os amigos brincalhões se divertem, com brincadeiras (o ambiente bem conhecido de Puccini, pois na sua Juventude, viveu também em condições precárias, diametralmente opostos ao que conseguiu depois de alcançar grandes sucessos).

Entretanto alguém bate à porta, é a vizinha Mimi (cantada pelos sopranos Natalia Tanasil, alternando com Susana Gaspar), que vem dizer que perdeu as chaves. Rodolfo, o poeta (o tenor Gianluca Terranova), apaixonando-se por ela e canta a bela aria: Che Gelida Manina, acabando o I Ato, com ambos saindo e a cantar um dueto. Aqui o Tenor cortou a frase em virtude de lhe ter faltado o folego.

 

La Bohème

La Bohème, foto ACL

 

O II Acto abre com todos confraternizando, no café Momus, onde aparece pelo braço de um ancião ricaço a exuberante Musetta (Bárbara Barradas), canta uma valsa e provocativamente, que causa ciúmes ao pintor Marcelo (o barítono Christian Luján). A cena é animadíssima por onde passam vendedores apregoando, crianças a brincar e o coro canta.

O III Ato passa-se nas portas de Paris, Mimi aparece muito combalida e a tossir, queixando-se dos ciúmes de Rodolfo, enquanto este lamentando, canta a aria Mimi è una Civetta che frascheggia con tutti com ironia e tristeza.

No IV e último Ato, voltamos à mansarda onde Coline (André Henriques) e  Schaunard (Diogo Oliveira) trazem uma humilde refeição, quando Mimi aparece desfalecida. Esta sofre de tuberculose e o fim aproxima-se, com os enamorados a recordarem os dias de felicidade.

A direção musical do Maestro Domenico Longo, é cheia de intensidade, mas por vezes desejaríamos que a orquestra não cobrisse a voz dos cantores. Quanto ao Tenor que cantou o Rodolfo, embora tenha emitido o Dó de peito, a voz fica algo presa e um pouco ‘engolada’, não o deixando projetar devidamente a voz, suscitando surpresa, já que em Itália, donde é originário, existem as melhores escolas de Belcanto.

Já a revelação foi o Barítono Christian Luján, nascido na Colômbia, mas a viver em Portugal, com um bom volume, timbre e emissão de voz. A Museta apresenta problemas vocais, mas interpretou com um grande espalhafato e extroversão. O papel de Coline, deveria ser cantado por um baixo, em vez de um barítono. O Soprano lírico moldava Natália Tanasii, que está a cantar nos grandes teatros europeus, possui um bonito timbre e entoação. De destacar o contributo de vários cantores portugueses, bastante promissores!

Auguramos mais espetáculos de ópera, pois existem melómanos sedentos de ouvir cantores e orquestras sinfónicas.


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Cinema, Teatro e Canto Lírico

Melómano e cinéfilo inveterado com décadas a ver e ouvir o que de melhor foi e é Produzido e Realizado no Cinema, Teatro e Canto Lírico.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos