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Paraíso- A Divina Comédia
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3 de março, 2022 0 Por Filipe Daniel
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Paraíso – A Divina Comédia

 

 

O poema épico e teológico de Dante, A Divina Comédia, volta a pisar as tábuas do teatro pela mão do Teatro O Bando e texto de Miguel Jesus. Após o Inferno (2017), o Purgatório (2019), a visão de João Brites traz-nos à terceira parte do que é nada mais que um correr atrás, uma procura por amor, disfarçada, ou melhor dizendo coberta pela imagem religiosa do que poderia ser o Paraíso.

 

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Dante (Pedro Gil) em Paraíso – A Divina Comédia, Foto ©Filipe Ferreira

 

Dante, interpretado por Pedro Gil, encontra-se sozinho em palco, aguarda-nos no ponto de passagem, na boca de cena, acaba de sair do purgatório, espera pela nossa chegada, que nos sentemos e que nos preparemos. Sim, o ponto fundamental é a preparação.
Dante, tal como todos os que têm insónias ou problemas em dormir enfrentam o mesmo problema, o mundo onírico pode ser aterrador ou maravilhoso – quem sabe se não ambos.
É levantada a porta que nos permite seguir atrás de uma ideia de paraíso…

 

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Beatriz (Sara Belo) e Dante (Pedro Gil) em Paraíso – A Divina Comédia, Foto ©Filipe Ferreira

 

As estruturas metalizadas mantiveram-se, a coerência cenográfica também e foi precisamente nessa continuação que traz algo de novo. Um imenso conjunto de Gaiolas suspensas, criando um universo surrealista não tão azul e verdejante quanto esperávamos.

Um Paraíso mais solitário, cujo foco, continua no amor, na loucura e perseguição de satisfação própria e da amada Beatriz (Sara Belo).

 

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Beatriz (Sara Belo) em Paraíso – A Divina Comédia, Foto ©Filipe Ferreira

 

A presença pela interação com música estonteante continua, agora é com Sopros, diversos músicos espalhados pelo palco, cada um estático, morto, eterno, na sua gaiola do paraíso que vão dialogando com Dante, alguns mais parecem avisos, cuidado com o ego, cuidado com o amor cego. Este não lhes liga… nem nós.
Este Paraíso é uma atitude crítica de João Brites face ao desenho religioso do Paraíso, um local que será sempre estático em que a auto reflexão é a única possível, uma auto-psicanálise portanto, mas sem ser possível fazer alterações às nossas futuras ações.

São mais de 90 minutos de espetáculo em cada elemento individualmente é coerente e mais que suficiente para nos deleitar, quer os músicos, que nos transportam ao mundo do sonho, ou o Dante que joga com a reflexão interna num texto com cerca de 12 páginas segundo João Brites, há um jogo de silêncios quase filosóficos, e a contracena com Sara Belo cria os momentos de tensão que o próprio poema não dá. Estes dois atores conseguiram em palco ilustrar o amante a transformar-se no amado, teórico na teoria.

Todos vamos morrer, agora a questão que é deixada para pensarmos com o espetáculo é que tipo de vida queremos deixar, e se, caso o paraíso exista, os nosso ideais ficaram realizados, encontrámos amor?

 

Paraíso - A Divina Comédia, Foto ©Filipe Ferreira

Paraíso – A Divina Comédia, Foto ©Filipe Ferreira

 

Um espetáculo altamente visual e sonoro, que recordaremos sempre que se pense ou fale em religião ou paraíso. O momento final é a cereja no topo desta trilogia, em que após se fechar a cortina que abriu o paraíso, deuses e mitologias são evocados claramente assumindo a ficção quer do teatro quer da religião, e da nossa necessidade de querer acreditar em algo mais, de querer correr atrás. da procura da satisfação.
Se Dante, 700 anos depois estivesse naquela sala teria ficado satisfeito com certeza.

Ainda bem que este espetáculo existe.

 

Paraíso – A Divina Comédia no TNDM II


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Filipe Daniel
Autor

Lisboa, 1999. Tenta encontrar respostas através do Palco. Vê o teatro como um aliado da história e filosofia para resolver (ou não) os problemas do mundo.

Jaime Roriz Advogados Artes & contextos